
O presente Super Artigo fará um breve passeio pela história do autorretrato, buscando entender as raízes de uma prática que parece um modismo, mas que ?tá na cara? que é mais que isso: a famosa ?selfie?.
O retrato é uma prática tão antiga quanto a humanidade, tendo suas origens nos povos antigos, como os egípcios e micênicos, seja através da produção de máscaras mortuárias, moedas, esculturas ou pinturas, visando as mais diversas finalidades. Há, até mesmo, quem atribua uma essência retratística às impressões feitas nas paredes das cavernas por nossos antepassados pré-históricos, mas é apenas no final da idade média, com as mudanças de postura trazidas pelos primeiros sopros do Renascimento, que conferiam ao homem um lugar de destaque na sociedade e no pensamento em substituição à primazia de deuses e santos, que nos deparamos com a afirmação do retrato como modalidade artística, após seu quase total ocaso com a queda de Roma.
No interior dessa temática, um subgênero sempre esteve presente, ainda que modestamente representado, o autorretrato. Nos primeiros anos do século XIV, Giotto di Bondone (1267-1337), ao executar o afresco da Capela Scrovegni, registra um suposto autorretrato, considerado o primeiro da era moderna, a partir do qual se iniciará uma infindável sucessão. Albretch Dürer (1471-1528) foi o primeiro artista a realizar uma série sistemática de autorretratos, iniciando a jornada ainda aos 14 anos de idade. Rembrandt Van Rjin (1606-1669) pode ser considerado um dos maiores autorretratistas de todos os tempos, tanto em quantidade quanto em qualidade, tendo pintado o próprio rosto mais de cem vezes ao longo da carreira, todos com enorme carga psicológica e técnica impecável. Gustave Courbet (1819-1877) costumava se retratar em situações que corroboravam sua postura política, fazendo diversos questionamentos sociais relativos às diferenças de classes e à artificiosa noção de que o campo representaria uma alternativa paradisíaca ao caos urbano. Vincent Van Gogh (1853-1890) se retratou objetivando explorar não sua fisionomia, mas seu estado de espírito.
Cada artista tem suas próprias motivações, teóricas e estéticas, para usar a si mesmo como modelo, contudo, ao menos dois motivos costumam estar em foco na produção de praticamente todos esses artistas. Um de cunho social, que diz respeito à própria essência da retratística. Retratar alguém é uma forma de conceder imortalidade a sua imagem, e historicamente, apenas pessoas importantes eram retratadas, monarcas, integrantes do alto clero e os grandes burgueses. Ao produzir uma imagem de si mesmo, o artista acaba por tentar se colocar no mesmo lugar em que estão os aristocratas que encomendam seus trabalhos, como bem ilustra, de maneira ao mesmo tempo romântica e irônica, a obra ?Courbet com o Cão Negro?, de 1942, em que o artista se idealiza como um homem do campo em atitude aristocrática. A prática remonta à Renascença, quando o status do artista apesar de estar gradativamente se elevando, separando-o do artesão, ainda o mantinha afastado das classes dominantes.
O outro, seria de ordem prática, afinal, qual modelo seria tão barato e disponível quanto o próprio artista? Alcançar a maestria em qualquer área exige prática, e nem sempre os artistas podem recorrer a modelos profissionais, por serem caros, ou a amigos e parentes, por, simplesmente, terem mais o que fazer. Com o advento da fotografia, mais precisamente, com sua popularização, o problema do modelo pode ser parcialmente resolvido, posto que alguns artistas decidiram, cada um por seu próprio motivo, substituir o modelo vivo pelas reproduções fotográficas, como Chuck Close (n.1940), por exemplo, que passou grande parte de sua vida utilizando, para cada trabalho, várias fotografias como referência, a fim de abordar todos os detalhes com precisão, promovendo um embate entre a objetividade da câmera e a subjetividade do artista.
Logicamente, a fotografia, por si só já causou uma revolução na produção de retratos. O tempo de execução foi, que era de dias e até mesmo meses para retratos pintados, diminuído drasticamente pelos dez minutos de exposição do daguerreótipo (uma máquina fotográfica rudimentar) até chegar ao instantâneo das Polaroids, câmeras digitas e smartphones. O primeiro autorretrato da era da fotografia foi feito em 1839 pelo químico alemão Robert Cornelius, valendo-se do daguerreótipo. Desde então diversos artistas usaram e abusaram de tal prática, buscando explorar a nova ferramenta, útil e divertida, para fins recreativos e, logicamente, artísticos, tanto como meio de se executar uma pintura (sem a necessidade do modelo vivo) quanto como produto final.
Muitos artistas seguiram pelas sendas da subversão do meio em vez de adotá-lo pacificamente, fotografando-se não para mostrar o próprio rosto, mas para encarnar personagens como fizeram Man Ray (1890-1976) e Marcel Duchamp (1887-1968) ou para comentar arquétipos sociais, no caso de Cindy Sherman (n.1954). Ou ainda, como Andy Warhol (1928-1987), que a partir de autorretratos (além deretratos de terceiros) questionava noções de subjetividade e indivíduo, como um comentário da sociedade de consumo.
Abordando exatamente as possibilidades de uso das câmeras digitais e o trânsito fácil entre privado e público que essas imagens percorrem, sobretudo quando atreladas às mídias sociais, Juan Francisco Casas (n.1976) reproduz em pinturas ou desenhos hiperrealistas, feitos com canetas esferográficas, suas imagens fotográficas, normalmente em momentos de intimidade.
Atualmente, a exploração da imagem não diminuiu, ao contrário aumenta cada vez mais, constituindo-se em um verdadeiro culto. Basicamente, qualquer um pode se fotografar e lançar-se para o mundo, podendo até alcançar os quinze minutos de fama, preditos por Warhol. Mas por quê? Para quê? Parece que as questões não mudaram muito. A praticidade é um fator determinante. Podemos tirar tantas fotos quanto o nosso dedo aguentar, as que não ficarem boas podem ser imediatamente deletadas. Não contamos quantas poses faltam para acabar o filme. Andamos o tempo todo com uma câmera acoplada a nós, por meio dos nossos celulares.
Sim, todos podem estampar seus rostos na internet. Mas essa exposição da imagem ainda está atrelada àquela idéia, comentada no início do texto, de que pessoas importantes são retratadas, afinal são elas que estampam as revistas impressas, que nos visitam e encaram pela tela da TV, se agigantam nas telas de cinema ou ilustram os sites mais populares.
Queremos mostrar ao mundo que somos importantes, provar que visitamos esse ou aquele lugar, com essa ou aquela pessoa. Queremos nos igualar aos aristocratas do mundo do espetáculo, como se eles fossem realmente melhor que nós. Sentimos a necessidade de gravar nossa marca na eternidade como quem cunha uma moeda de ouro com o rosto do imperador. E, é claro, não sejamos chatos, nos divertir um pouco.