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No Super Artigo de hoje vamos falar de algo que, inegavelmente, nos diz respeito. Se você está lendo essas linhas, é certo que faz parte desse contexto, qual seja, entender o papel da internet em nossas vidas. Seria ela uma vilã, uma heroína, ou apenas mais um dos tantos avanços tecnológicos que nos acompanham desde que o mundo é mundo e com o qual devemos aprender a nos relacionar. Para onde a ficção aponta e para onde a realidade nos leva?


Para início de conversa, vale apresentar o termo que intitula nosso artigo. Netrunner, algo como ?Corredor da Rede?, é o nome de um Card Game, criado em 1996, atualizado em 2012 com o nome de Androide: Netrunner e largamente influenciado pelo livro Neuromancer, de William Gibson, publicado em 1984. Remete ainda a um dos tipos de personagem do jogo de RPG Gurps Cyberpunk, de 1990, igualmente influenciado pela obra de Gibson. Segundo consta no livro de regras deste RPG, ?O netrunner é um especialista na arte de penetrar nos sistemas de segurança dos computadores (?) conhecido pelo seu nome atual de hacker.? Com a diferença de não se valer de mouse e teclado, mas acessar os dados através de sua própria rede neural, chegando ao ponto de manipulá-los tridimensionalmente, isto é, ele pode, literalmente, abrir uma pasta e folhear um arquivo de texto, por exemplo. O ciberespaço é o seu mundo. Para nós, o que mais interessa é o entendimento da expressão como alguém que, como nós, corre livremente pela rede, ou seja, que navega veloz e incessantemente pela internet? o ciberespaço é o nosso mundo.


Gibson, um dos maiores escritores de ficção científica dos últimos tempos, influenciou enormemente a fantasia e a realidade cibernética. Ele foi o responsável por cunhar o termo ciberespaço, desenhando o ambiente e a iconografia de um sistema de rede de informação, antes de a internet se tornar onipresente a partir da década de 90, de forma tão precisa que levou o escritor Jack Womack a sugerir que a visão de Gibson pode ter inspirado o modo como a internet se desenvolveu. No campo da ficção, grandes obras sofreram abertamente sua influência, como o mangá Ghost in the Shell e a trilogia cinematográfica Matrix. O que todas essas obras guardam como similaridade primordial é o aspecto degradante da sociedade que retratam, um misto de alta tecnologia e baixo padrão de vida, em um ambiente Noir. Tal pessimismo na relação entre o ser humano e a tecnologia interativa permeia de diversas formas uma infinidade de outras obras, além de povoar receios reais, sempre em discussão quando falamos sobre o papel da internet em nossas vidas.


Inserir a internet em uma relação de dualismo do tipo bem x mal soaria, no mínimo, como uma postura inocente, e acima de tudo infrutífera. Não se pode imaginar um mundo sem sua presença, agora que a experimentamos e lhe entregamos, pouco a pouco, toda a nossa confiança. Não é novidade alguma o fato de sermos dependentes das facilidades que essa tecnologia nos trouxe, tanto quanto dependemos do telefone, da energia elétrica ou da roda. A internet tem sua origem nas décadas de 60 e 70, quando foram desenvolvidos modos de transmissão e compartilhamento de dados entre centros tecnológicos, que logo foram evoluindo no decorrer das décadas até que em 1989, surgiu no CERN o projeto World Wide Web, que permitia às pessoas trabalhar em conjunto, valendo-se de uma rede de documentos, o que depois de dois anos foi disponibilizado mundialmente com uma configuração bem próxima da que temos hoje.


Em um dos maiores avanços na área, a internet escapou às limitações dos PCs para acompanhar a mobilidade humana, e mesmo no Brasil, onde a qualidade dos serviços de distribuição é precária e cara, grande parte da população tem acesso à informação através de tablets, smartphones e, mais recentemente e em menor escala, phablets. Difícil não associar este estilo de vida ao dos netrunners citados, pois é como se estivéssemos intimamente conectados ao ciberespaço, praticamente, onde quer que estejamos, ao ponto de sofrermos verdadeiramente quando nos encontramos em alguma situação que nos deixa offline. É exatamente isso que leva puristas a condenar a ?Internet?, enquanto uma entidade maligna que conecta os jovens a um mundo virtual e os desconecta do mundo real, em vez de apontar os possíveis excessos e maneiras de melhor utilizá-la. Vale, em vez de pensar tal adjetivação desta rede de computadores interligados, analisar seus modos de relacionamento com o homem, como dizer que os carros apenas se tornam perigosos em conjunto com os motoristas, que, por sua vez, se transformam em feras descontroladas ao assumir o volante, para estabelecer um paralelo divertido com o famoso desenho da Disney, protagonizado pelo Pateta.


Luiz Felipe Pondé diz que ?no futuro, não seremos lembrados como a era do iPad, nem da Apple, mas como a era do ressentimento?, pois somos criaturas mimadas e narcisistas que não conseguem ouvir críticas sem considerá-las um tipo de ofensa pessoal, já que nossas opiniões parecem nos definir, e cada um de nós tem direito à sua, mesmo que infundada. Pode ser? Mas, as duas possibilidades não se excluem, ao contrário, se complementam. Muito dessa introspecção e da ideia de que a opinião é algo sagrado está relacionado ao modo de vida atrelado às novas tecnologias, que nos mantêm constantemente informados, ainda que de forma rasa e rasteira. Sites, redes sociais e aplicativos nos bombardeiam com informações as quais não temos tempo de digerir, pois somos sufocados pela necessidade de opinar, afinal, todos estão opinando e ninguém quer parecer desinformado.


Vivemos com a impressão de que temos todo o conhecimento do mundo ao alcance de um clique, mas o que seria, de fato, um conhecimento de mundo? Informação não é conhecimento, este depende da experiência, da vivência. Digamos que a informação seja tinta e lona, e o conhecimento, a Monalisa. John Dewey faz uma analogia em leu livro, Arte como Experiência, que vale a pena ser, ao menos, resumida aqui, pois hoje, mais do que nunca ela parece fazer muito sentido: o autor propõe, para o entendimento do que seja uma experiência, que imaginemos uma pedra a rolar uma montanha, e, ainda, que essa pedra anseie pelo resultado final, ou seja, que ela se importe com o que lhe acontecerá até chegar ao pé da montanha, e assim se interesse por aquilo que retardará ou acelerará seu avanço, que sujará ou limpará sua superfície, filtrando e aproveitando cada etapa da descida que se relacionará com a chegada, propiciando uma real experiência. Em seguida, Dewey aponta que nós nos parecemos mais com uma pedra real, e não com essa que acabamos de imaginar, pois rolamos montanha abaixo passando vorazmente por tudo o que aparece no caminho. O mundo contemporâneo nos impele a tal comportamento, já que tempo é dinheiro, dinheiro é poder, e poder é informação. É angustiante como o tempo parece ser cada vez mais escasso, logicamente, por termos um número crescente de informação para processar, e que acabamos por processar superficialmente.


Outro ponto que vilaniza a era da informação é a tendência ao isolamento social. É comum vermos o surgimento de ambientes virtuais de relações em detrimento dos espaços tradicionais de convívio, desenvolvendo-se um ciberespaço quase físico, exatamente como proposto por Gibson, no qual podemos ter milhares de amigos, enquanto no mundo real encontrar um ou dois amigos verdadeiros requer um esforço bem maior que clicar em um botão. Essa realidade pode afastar os próximos e aproximar os distantes, e isso pode ser entendido como algo perverso quando se trata de uma pessoa que fica com os olhos grudados no Whatsapp durante o jantar, ignorando a existência de seus familiares, ou quando em uma mesa de bar os amigos preferem deslizar os dedos pela tela de seus smartphones em vez de conversarem entre si.


Contudo, é preciso entender esses comportamentos como desvios e não como regra, ainda que se reproduzam com mais frequência que uma postura comedida. Pode ser, ainda, que isso não passe de certo encanto com a novidade, algo que naturalmente se resfriará. Cabe ressaltar o quanto a busca por conteúdo relevante se tornou absurdamente mais simples e dinâmica: podemos pesquisar bibliotecas inteiras sem sair de casa, selecionar livros e artigos para leitura, acessar vídeos que operam como aqueles livros do tipo faça você mesmo, reencontrar amigos distantes e mesmo nos comprazer com entretenimento acessível. Aproximar os distantes e afastar os mais próximos pode significar, simplesmente, um poder de escolha, a preferência por ter uma conversa produtiva com um amigo que está do outro lado do mundo no lugar de um ?papo-furado? com o colega ao lado.


Na verdade, tamanha facilidade de conexão independente das distâncias é, provavelmente, o maior trunfo da nossa era. O pensamento contemporâneo valoriza a estrutura em rede como superação do modelo hierárquico da era moderna, apontando para a possibilidade de um tipo fluido de sujeito, cuja inteireza dependa não de suas especificidades, mas das multiplicidades que o perpassam. Entendemos os ramos do conhecimento e da vida cotidiana como interdependentes, posto que para ganhar visibilidade uma ação precisa se conectar a diversas esferas. Assim, não basta a um artista produzir uma ?grande obra?; ela precisa ser aceita no meio artístico, ser exposta, criticada, divulgada, fruída pelo público, desejavelmente vendida e valorizada, o que valorizará o próprio artista, os críticos e os espaços expositivos. Dado esse exemplo, podemos perceber que a internet é o meio ideal para a propagação da lógica das redes, por se tratar ela mesma de uma rede, em que as conexões ocorrem de forma instantânea, facilitando todo esse processo.


Ademais, seguindo esse modelo de conectividade, é possível lidar com uma questão que há muito tempo existe, mas que agora se torna óbvia, a fadada noção de ideia original. Com a troca de idéias e difusão de informação nas redes, percebemos que insights muito próximos ocorrem em pontos distantes do mundo, tanto de maneira independente quanto por conta do compartilhamento de influências. Steven Johnson diz que boas ideias surgem da colisão de outras menores e que é preciso criar ambientes que favoreçam esses encontros de ideias, como os cafés parisienses na virada do século XIX para o XX, e que, historicamente, o aumento da conectividade tem sido o principal motor da inovação, o que encontra seu ponto culminante com a internet. Entretanto, o autor também chama a atenção para um tempo de hibernação, uma longa espera para o amadurecimento desses palpites. Parece, então, que o ponto chave da questão do uso da internet está relacionado à qualidade do nosso tempo. Estar conectado parece ser fundamental, mas organizar as informações de maneira construtiva é primordial.


Segundo Jorge Larrosa


?a possibilidade de que algo nos aconteça ou nos toque, requer um gesto de interrupção, um gesto que é quase impossível nos tempos que correm: requer parar para pensar, parar para olhar, parar para escutar (?) olhar mais devagar (?) demorar-se nos detalhes, suspender a opinião, suspender o juízo (?) suspender o automatismo da ação, cultivar a atenção (?) ter paciência e dar-se tempo e espaço.?


Nosso tempo, a era da conectividade, e as novas relações que se formaram nos forçam a buscar uma aceleração acima das nossas possibilidades. Talvez não estejamos prontos para correr na rede como os Netrunners, nossa capacidade de processamento não alcançou tal amadurecimento, pelo menos não ainda. Em vez disso, talvez devêssemos frear o entusiasmo e caminhar calma e atentamente pelos entroncamentos dessa estrada sem fim, aproveitando a paisagem e os encontros. Prazer, somos os Netwalkers.